Não vejo mal algum
em sentir o que se chama de “malaise”.Mal estar no mundo, se usarmos a
conotação gaulesa do termo, existente também no correlato inglês.Muito menos
culpa, aquela derivada do propalado individualismo pequeno burguês tão
condenado pelos ativistas políticos de esquerda militante, especialmente dos
antigos comunistas.”Tua inconsequência, tua irresponsabilidade!”.Assim bradavam
aos ouvidos do poeta os militantes comunistas no Terra em Transe de Glauber
Rocha.Lembro-me de ter decidido sair do partido e daquela estapafúrdia esquerda
ortodoxa depois de ter assistido ao filme Não sentir malaise,
atualmente, significa no mínimo estar alienado.Ou absorvido por algum credo
salvacionista, seja ele vocacionado ao reino dos céus ou dos
homens.Principalmente no caso do Brasil.
A tal da
"malaise" é a coisa que mais vejo entre a maioria dos intelectuais,
inclusive os progressistas.Como a maioria dos intelectuais não tem ligação
orgânica com as massas, sendo um tipo de “aristocratas” em meio à massa
estulta, a maioria não acreditando no fundo em revolução-que talvez fosse mesmo
a única solução- ou em militância política, acaba mesmo caindo numa prostração
de desengano, algo que me lembra em muito certo estado de espírito, estético de
certa intelectualidade, especialmente a artística, do romantismo do século
dezenove.Por outro lado, entre esses românticos havia os revoltados que
empreendiam esforços individualistas, muitas vezes anarquistas, contra o
sistema que desprezavam.Havia um profundo mal estar na sociedade russa em 1916,
após o fracasso da tentativa de mudar o país depois de 1905.Isso fica evidente
em escritos de artistas e outros intelectuais russos da época.Mesmo entre
muitos dos mais radicais de esquerda surgia um certo sentimento de que nada
mudaria.Ou que mudaria pouco.Mas a guerra e a fome se alastraram de tal maneira
que o troço começou a tomar proporções enormes, as próprias massas desvalidas
se organizando, espontaneamente, em revolta contra o poder.A guerra pode
funcionar como um catalisador imprevisível, quase como uma força destrutiva da
natureza, um terremoto.Mas no Brasil, a
organização popular-organização mesmo, consciente e de resistência- ainda é
muito pequena para mudanças num todo gigantesco como o país.Por outro lado, a
desmoralização das elites é evidente.O povão vê isso, ainda de forma
inercial.Talvez se uma "malaise" transformada em ação se apossasse de
todo mundo, com direções consequentes-coisa que não vejo em grande escala por
aqui- essa merda toda caísse.Se não cair, não tem como não dar merda.Pode ir
para melhor; ou para pior, já que nossas elites burguesas não são liberais,
adoram o porrete.A economia será o terremoto que vai arrebentar.Não é questão
de messianismo e sim de lógica.Enquanto isso, continuaremos a enfrentar as
"malaises" de tantos e tantos.E viveremos nesse estágio, coisas
mudando para tudo ficar como está, a sensação de que tudo pode realmente ficar
como está ou não. A luz no fim do túnel seria real ou ilusória?O problema,
afinal, não é só no Brasil e sim no mundo. Tudo é sempre internacional, diria o
lobo revolucionário Trotski.Se a indignação não se transformar em ação....Nossa
frondosa natureza tropical, tão atacada pelo capital, oculta as tragédias
cotidianas Vivemos um tipo de guerra civil disfarçada.E só não leva bomba na
cabeça quem mora nos jardins paulistanos ou nos grotões de privilégios
econômicos..Faltou, isso sim, demonstração de mal estar e indignação, além de
insatisfação, quando a situação era economicamente melhor, quando a
redistribuição de renda, as migalhas e sobras retiradas pelo estado da
abundância indecente que sempre adornou os ricos, dava uma certa ilusão-ah, o
pacto social e um pouco mais de consumo, que milagres fazem!- de que o país se
encaminhava ao eden, multidões de pobres no crédito fácil, a eterna indecência
fedorenta do transporte público e das filas , gente com telefone celular a crédito
e sem saneamento básico ou vida minimamente decente nas paupérrimas residências
ou favelas.Ah, a fome acabou?Mas e a pobreza?E a violência dela derivada?
"Vamos
transformar esse país num gigantesco país de classe média", bradavam as
lideranças de momento, quando o que se chama de esquerda aparentemente dava as
cartas, marcadas.Se é que realmente as davam..Quando os calos da classe média
apertam, surgem as indignações, moralismos furiosos e as "malaises",
furiosas e irracionais de uns, apenas lamentosas de outros, inclusive as dos
intelectuais.Ouço tanto por aí: "ah, precisaria que alguém desse uns tiros
nuns poderosos para despertar a ira".Não sei se isso adiantaria.A polícia
sempre terá mais balas para gastar.Nem sei se o país vai mudar.O tempo da história
de um país é sempre maior que o de um indivíduo.Posso chegar e também falar que
o país é uma bosta.Mas não sei se o resto do mundo também não o é..Talvez o
calo seja mais embaixo, na própria civilização, sei lá.Principalmente porque a
irracionalidade econômica da máquina do mundo pode levar a humanidade para o
buraco.Os pobres também sentem a tal "malaise", à maneira silenciosa
deles, não verbalizada, por não terem voz para verbalizar. A cultura manipulada
pela indústria cultural que vomita lixo para se consumir ajuda um bocado.A
gente vai levando, a gente vai levando....Porque sem cultura e consciência não
se verbaliza nada.Eis aí uma chave , quem sabe, para a sensação de inércia que
oprime tanta gente.Por isso não critico tanto a "malaise" de
tantos.Malaise é mesmo coisa de classe média aparentemente; logo , não a
critico, apenas os seus desdobramentos práticos. De fato, cuidar do estômago já
dá muito trabalho e pouco tempo para se refletir sobre a vida.Coisa que pode
levar a não se querer refletir sobre ela. O mal estar, a “malaise”, aparece
então como uma sombra, uma sombra por baixo da grande sombra do mal que sobre
tudo paira, espalhando o descrédito.Já que sofro disso desde que me dei conta
de minha mortalidade, talvez então não passe de romântico em eterna vivência de
“malaise”..E, privilegiado que sou, mesmo sendo um classe média com pé na
merda, sei que uma coisa assim só será mesmo lida por meus pares.O povão não lê
isso, não tem tempo, não leria, não lerá.Não lê nada, em verdade.Só vê ou lê o
que mandam ver e ler-um novo tipo de
escravidão- ou obedecer o que rezam os sensacionalismos vulgares de programas
televisivos..Vamos então vociferar nossas "malaises" pelo mundo
afora, pelos ônibus, parques, banheiros, pelas festas, em meio aos grotescos
espetáculos de violência, pelos botequins. “Para o júbilo o planeta está
imaturo” bradava o poeta russo revolucionário.Acrescentaria eu : sempre.Ser o
eterno chato que tudo critica e tudo sonha. Visto um pouco como um louco.
Manso, porque não baba.A não ser pela beleza.Porque pode ser que as coisas
mudem muito devagar.Ou não!Se para o melhor ou pior, em parte depende da gente um pouco ou da vontade de deus.Contudo, como não acredito
em deus....
Mas
não vou me roubar o direito de sentir ou expressar minha malaise.Afinal, vim ao
mundo chorando- um pouco depois de uma eventual asfixia depois do parto- sem
pedir e não gostaria de partir dele sem querer.Mas a vida e o mundo sempre
serão maiores do que sou..
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