sábado, 8 de julho de 2017

O direito de sentir "malaise"

Não vejo mal algum em sentir o que se chama de “malaise”.Mal estar no mundo, se usarmos a conotação gaulesa do termo, existente também no correlato inglês.Muito menos culpa, aquela derivada do propalado individualismo pequeno burguês tão condenado pelos ativistas políticos de esquerda militante, especialmente dos antigos comunistas.”Tua inconsequência, tua irresponsabilidade!”.Assim bradavam aos ouvidos do poeta os militantes comunistas no Terra em Transe de Glauber Rocha.Lembro-me de ter decidido sair do partido e daquela estapafúrdia esquerda ortodoxa depois de ter assistido ao filme Não sentir malaise, atualmente, significa no mínimo estar alienado.Ou absorvido por algum credo salvacionista, seja ele vocacionado ao reino dos céus ou dos homens.Principalmente no caso do Brasil.
     A tal da "malaise" é a coisa que mais vejo entre a maioria dos intelectuais, inclusive os progressistas.Como a maioria dos intelectuais não tem ligação orgânica com as massas, sendo um tipo de “aristocratas” em meio à massa estulta, a maioria não acreditando no fundo em revolução-que talvez fosse mesmo a única solução- ou em militância política, acaba mesmo caindo numa prostração de desengano, algo que me lembra em muito certo estado de espírito, estético de certa intelectualidade, especialmente a artística, do romantismo do século dezenove.Por outro lado, entre esses românticos havia os revoltados que empreendiam esforços individualistas, muitas vezes anarquistas, contra o sistema que desprezavam.Havia um profundo mal estar na sociedade russa em 1916, após o fracasso da tentativa de mudar o país depois de 1905.Isso fica evidente em escritos de artistas e outros intelectuais russos da época.Mesmo entre muitos dos mais radicais de esquerda surgia um certo sentimento de que nada mudaria.Ou que mudaria pouco.Mas a guerra e a fome se alastraram de tal maneira que o troço começou a tomar proporções enormes, as próprias massas desvalidas se organizando, espontaneamente, em revolta contra o poder.A guerra pode funcionar como um catalisador imprevisível, quase como uma força destrutiva da natureza,  um terremoto.Mas no Brasil, a organização popular-organização mesmo, consciente e de resistência- ainda é muito pequena para mudanças num todo gigantesco como o país.Por outro lado, a desmoralização das elites é evidente.O povão vê isso, ainda de forma inercial.Talvez se uma "malaise" transformada em ação se apossasse de todo mundo, com direções consequentes-coisa que não vejo em grande escala por aqui- essa merda toda caísse.Se não cair, não tem como não dar merda.Pode ir para melhor; ou para pior, já que nossas elites burguesas não são liberais, adoram o porrete.A economia será o terremoto que vai arrebentar.Não é questão de messianismo e sim de lógica.Enquanto isso, continuaremos a enfrentar as "malaises" de tantos e tantos.E viveremos nesse estágio, coisas mudando para tudo ficar como está, a sensação de que tudo pode realmente ficar como está ou não. A luz no fim do túnel seria real ou ilusória?O problema, afinal, não é só no Brasil e sim no mundo. Tudo é sempre internacional, diria o lobo revolucionário Trotski.Se a indignação não se transformar em ação....Nossa frondosa natureza tropical, tão atacada pelo capital, oculta as tragédias cotidianas Vivemos um tipo de guerra civil disfarçada.E só não leva bomba na cabeça quem mora nos jardins paulistanos ou nos grotões de privilégios econômicos..Faltou, isso sim, demonstração de mal estar e indignação, além de insatisfação, quando a situação era economicamente melhor, quando a redistribuição de renda, as migalhas e sobras retiradas pelo estado da abundância indecente que sempre adornou os ricos, dava uma certa ilusão-ah, o pacto social e um pouco mais de consumo, que milagres fazem!- de que o país se encaminhava ao eden, multidões de pobres no crédito fácil, a eterna indecência fedorenta do transporte público e das filas , gente com telefone celular a crédito e sem saneamento básico ou vida minimamente decente nas paupérrimas residências ou favelas.Ah, a fome acabou?Mas e a pobreza?E a violência dela derivada?
     "Vamos transformar esse país num gigantesco país de classe média", bradavam as lideranças de momento, quando o que se chama de esquerda aparentemente dava as cartas, marcadas.Se é que realmente as davam..Quando os calos da classe média apertam, surgem as indignações, moralismos furiosos e as "malaises", furiosas e irracionais de uns, apenas lamentosas de outros, inclusive as dos intelectuais.Ouço tanto por aí: "ah, precisaria que alguém desse uns tiros nuns poderosos para despertar a ira".Não sei se isso adiantaria.A polícia sempre terá mais balas para gastar.Nem sei se o país vai mudar.O tempo da história de um país é sempre maior que o de um indivíduo.Posso chegar e também falar que o país é uma bosta.Mas não sei se o resto do mundo também não o é..Talvez o calo seja mais embaixo, na própria civilização, sei lá.Principalmente porque a irracionalidade econômica da máquina do mundo pode levar a humanidade para o buraco.Os pobres também sentem a tal "malaise", à maneira silenciosa deles, não verbalizada, por não terem voz para verbalizar. A cultura manipulada pela indústria cultural que vomita lixo para se consumir ajuda um bocado.A gente vai levando, a gente vai levando....Porque sem cultura e consciência não se verbaliza nada.Eis aí uma chave , quem sabe, para a sensação de inércia que oprime tanta gente.Por isso não critico tanto a "malaise" de tantos.Malaise é mesmo coisa de classe média aparentemente; logo , não a critico, apenas os seus desdobramentos práticos. De fato, cuidar do estômago já dá muito trabalho e pouco tempo para se refletir sobre a vida.Coisa que pode levar a não se querer refletir sobre ela. O mal estar, a “malaise”, aparece então como uma sombra, uma sombra por baixo da grande sombra do mal que sobre tudo paira, espalhando o descrédito.Já que sofro disso desde que me dei conta de minha mortalidade, talvez então não passe de romântico em eterna vivência de “malaise”..E, privilegiado que sou, mesmo sendo um classe média com pé na merda, sei que uma coisa assim só será mesmo lida por meus pares.O povão não lê isso, não tem tempo, não leria, não lerá.Não lê nada, em verdade.Só vê ou lê o que  mandam ver e ler-um novo tipo de escravidão- ou obedecer o que rezam os sensacionalismos vulgares de programas televisivos..Vamos então vociferar nossas "malaises" pelo mundo afora, pelos ônibus, parques, banheiros, pelas festas, em meio aos grotescos espetáculos de violência, pelos botequins. “Para o júbilo o planeta está imaturo” bradava o poeta russo revolucionário.Acrescentaria eu : sempre.Ser o eterno chato que tudo critica e tudo sonha. Visto um pouco como um louco. Manso, porque não baba.A não ser pela beleza.Porque pode ser que as coisas mudem muito devagar.Ou não!Se para o melhor ou pior, em parte depende da gente  um pouco ou  da vontade de deus.Contudo, como não acredito em deus....

    Mas não vou me roubar o direito de sentir ou expressar minha malaise.Afinal, vim ao mundo chorando- um pouco depois de uma eventual asfixia depois do parto- sem pedir e não gostaria de partir dele sem querer.Mas a vida e o mundo sempre serão maiores do que sou..

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