sexta-feira, 27 de março de 2020

Reflexões em tempo de confinamento


    Em geral, a morte é tratada de uma forma um tanto abstrata, salvo para aqueles que têm contato direto com ela ou que estão mais próximos da mesma. Sempre damos mais valor à vida quando a morte nos cerca, valorizamos a saúde quando ela nos falta. Eu sempre pensei muito nela, morte, desde jovem, um pouco por certas morbidades(termo da moda) românticas. Mas, efetivamente, cheguei a uma idade em que ela está mais próxima de forma natural. Bom mesmo era quando-ah, isso faz muito, muito tempo- acreditava em vida após a morte, tempo de crenças metafísico-religiosas. A solidão e isolamento nos colocam em contato com as coisas estranhas e profundas de nós mesmos. Isso nos assusta. Também pudera, não há nada nessa vida que não deixe de me assustar ou espantar. A vida em geral é ilógica, irracional e absurda. O comportamento humano segue muita coisa dessa naturalidade cosmogônica que nos envolve. Mas temos que usar da racionalidade para escaparmos da morte. Pedir que a usássemos durante todo o tempo já seria esperar demais. Talvez o único sentido da vida seja mesmo o de escapar da morte, já que todos nascemos para morrer. Não pedimos para nascer e não queremos morrer. Entre essas duas constatações existe a vida.E talvez nos esqueçamos de pensá-la pela vida social que nos rouba de nós mesmos. Sim, o suicídio é a grande questão filosófica, como escreveu Camus, ele também vítima de morte absurda.
     Me causa certo alívio que esse maldito virus não mate tanto os jovens. E mais ainda, por causa de crianças. Mas tenho um sentimento pavoroso de intuição de morte de minha mãe, por exemplo; afinal, tem mais de noventa. Ou seria medo de minha morte? Ou da dor da morte? Como cuido dela, minha mãe, imaginando(sonhando!) não ter ainda o vírus, escapar dele, acho que minha reclusão será maior do que eu esperava. Se me sentia afastado do mundo, estranho essa compulsória imposição moral e física. Quando descobri que podia viver afastado dele, por meio da arte, isso foi além de descoberta, foi quase uma solução. Tantas e tantas vezes disse a mim mesmo que podia viver sem nada, exceto pintar, desenhar, ouvir música e...andar de bicicleta. Sozinho, claro!
     Esse tema, a morte, tem sido a constância de conversas com minha mãe já faz tempo, principalmente depois da morte de meu pai, cujos últimos acompanhei, morando junto e vendo a vela apagar. Tantas lembranças, tanto tempo relatado, o passado revivido em palavras,   mundos do passado que apenas uma pessoa provecta e lúcida pode nos comunicar. Ou seja, eu mesmo envelheci com ela; não é como há décadas, quando era um ser mais velho falando com um homem jovem. Sim, como um sopro, minha juventude se foi há tempos. Mas tudo é sincrônico na minha cabeça, o tempo se dilata por meio da memória, a gente é memória em ação. E minha mãe é memória viva. Por isso sempre adorei falar com os mais velhos, quando mais jovem. Via a velhice como um roteiro de sabedoria. Hoje sei que a maior parte dos velhos, infelizmente, não é composta de gente sábia. Apenas de gente chata, repetitiva, conformista, vivendo de rememorações pouco construtivas. Mas pai, tios, parentes próximos mais velhos, antigos professores que eu adorava visitar na universidade para conversar sobre suas ideias, tudo isso não existe mais, é um passado de ruínas, uma arqueologia de inconsciência e sensações. A morte levou a todos. Só na memória estão vivos. E tudo o que de mais significativo está vivo na memória, tudo isso irá para a tumba comigo, com ou sem velório, dependendo do que o fado me reservou pela frente. Confesso que tenho dito a mim mesmo que talvez cuidar de minha mãe em seus últimos dias seja meu último compromisso social. E deixemos as implicações psicanalíticas. Infelizmente, os fatos e acasos me fizeram apagar algumas coisas e, lamentavelmente, não sinto saudades de ex-mulheres. Culpa minha ou delas, isto não tem a mínima importância. Uma pena, já que sempre sonhei em morrer ao lado de uma. Ficou a mãe, ah,ah,ah!
    Não sei o quanto desenhar e pintar(que hoje me dá mais prazer do que antes) manterá a chama. Arre, que me esforcei, dentro dos limites! Talento faltava, vontade sobrava. A vontade que faz a chama queimar nessa vida. Mas quem sabe qual o material que compõe a cera que queima? Afinal, temos com a vida a mesma teimosia dos insetos que voam em torno da lâmpada.
      Minha vida não foi o que eu esperava mas teve lá seu valor. Não vou me queixar. Dei sorte com saúde(até agora), azar no amor( poucos dão sorte mesmo) e nunca gostei de jogar cartas. Talvez ganhasse fortuna se me aplicasse nelas...E continuei, como todo mundo, sendo uma forma de vida. E toda forma de vida tem seu valor. Só tem valor o que tem amor. Pelo menos serei obrigado a pintar e desenhar mais, sem as desculpas e preguiças de sempre, ou as desculpas da falta de talento, ah,ah,ah!  Que a vida mais "sociabilizada" produz. Nossa mente não tem limites. O estudo da arte e da ciência me ensinou isso. Por isso deveríamos viver mais de uma vida, as nossas amadas não deveriam envelhecer, a ciência deveria ressuscitá-las para que a "beleza" fosse preservada. Quem explica o mistério da beleza feminina, intangível e misteriosa sempre ? Ou o impacto que ela causa. Talvez o motor de tudo na arte? Afinal, criar é sempre algo feminino.
     Mas sou presunçoso e o vírus ardiloso .Tanto caos ao redor do mundo. Quantas covas no cemitério de minha vida? Viver é sempre deixar um cemitério de conhecidos, queridos ou não, atrás de si. Sei que tudo acaba em silêncio, mas quero ouvir os sinos, mesmo que eles dobrem por mim, além de tantos e tantos queridos que se foram de minha vida e eu nem sei se poderei encontrá-los de novo. Só rezaria para que os mais jovens vivessem além de mim. Ainda têm mensagem e coisa para dar .Os que nos são queridos nos dão força para que queiramos viver. Não querer morrer é dizer que amamos a vida. E o que se fala, faz ou sonha é para os que virão depois de nós. Viva a vida, abaixo a morte, essa torpe figura que consegue trapacear até em jogo de xadrez!