quinta-feira, 8 de março de 2018

Um homem e vinte mulheres

Numa sala, vinte mulheres e um homem a serem atendidos
A penitência de sempre em posto de saúde da prefeitura.Muita gente esperando a consulta.Maioria esmagadora de mulheres, boa parte perto ou já na meia idade.Idosas também, em menor número.Vinte mulheres na sala de espera, apenas um homem:eu.Sim, as mulheres cuidam mais da própria saúde.A frequência em hospital ou posto de saúde comprova a tese.Noto que a maior parte delas está acima do peso.Me causa certa angústia ao pensar nesse problema; afinal, eu com minha magreza já sofro em arrastar essa minha pobre carcaça pela madrasta vida, imagino que o carregar mais peso deve dar mais trabalho.Outra tese comprovada: obesidade de fato virou doença.Afora o ar cansado da espera, noto pouca beleza entre elas, preponderando o comum; algumas, talvez, já tenham sido bonitas, descortina-se isso pela observação, beleza roubada pela vida, cicatrizes do tempo evidentes em olhares, muitos deles demonstrando doçura.Mais fácil achar alguma forma de doçura numa sala com vinte mulheres do que noutra com vinte homens, óbvio.Bem, numa sala de grande empresa, mais difícil, suponho.Mas olho para as faces cansadas de todas elas, em sua maioria mulheres simples ou pobres.A única jovem é a que acompanha a avó, quase como uma flor num canteiro seco.Contraste duro como a passagem das horas de nossa vida, em nossa jornada de encontro marcado com o fim de tudo.Imagino a vida de privação e infortúnio de tantas delas naquela sala, coisa vivida em silêncio provavelmente em seus cotidianos de casamentos horríveis.sonhos frustrados ou maridos e companheiros detestáveis, patrões ou patroas desatinados ou desumanos.Vá lá saber o que se oculta por trás de uma face ou por trás de uma vida, agora postada na longa espera de um posto de saúde.Diabetes, alto peso, dores, remédios, tratamentos, assuntos diversos flutuando aqui e ali..A morte labora incessante dentro e fora de nós.O silêncio não dura tanto na sala já que, após um ou outro celular acionado-celular sempre é mais acessível que vida decente ou saneamento básico- começam as conversas.Impossível imaginar uma sala com vinte mulheres e um silêncio absoluto durante muito tempo.Pelo menos no Brasil, imagino.Algumas entram apreensivas na sala do médico e saem com um sorriso de alívio.Alívio, inclusive deduzo, de superar a modorrenta espera.Paciência, substantivo feminino.Se a paciência não existisse, seria, provavelmente, inventada por alguma mulher.Aprendi isso com mãe, avós e tias.Aliás, as únicas a terem paciência comigo.No meu céu imaginário, todas elas, santificadas, já têm acento de santa garantido.Resignado com meu edipianismo, como fugir a essa constatação em minha vida?
O travo que se instala no peito é como um prego no coração ao imaginar o que existe de frustração ou privação concentrada naquela sala.Falam de trabalho, filhos e de problemas com parentes, coisa que se pesca facilmente com o ouvido atento, além, claro de dores e saúde.Dor, outro substantivo feminino.Me lembro do poema, " a gente sofre sem querer". Nada é tão aplicável a mulher como isso.
Algo de angústia, raiva e desconsolo me enche a alma nesse momento.Quando atendido, certeza tenho de que não receberei notícia de morte iminente.Pelo menos da minha.Mas alguma coisa, naquelas mais de duas horas de espera, já morreu dentro de mim: a esperança de que a maioria das pessoas não leve uma vida besta.Todo dia, nessa via crucis repetida, essa morte se revive na sala de espera.Mas, enfim, na toada tipicamente feminina, enquanto houver vida, haverá paciência.E haja paciência.A morte democratizará todos os infortúnios.Quando não houver mais salas de espera de duas horas.